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Geral Análise

A ECONOMIA POLÍTICA DE “INDÚSTRIA AMERICANA”

Filme provoca uma reflexão fundamental do choque de culturas através do trabalho

09/04/2020 11h31 Atualizada há 7 meses
Por: Daniel Alvão
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

É terrível o custo da obediência. Nos países de economia de mercado, o custo mais sério é o da tributação. No Estado intervencionista brasileiro, além deste, há o custo de obediência aos controles. Estes são tão insolentes como onipresentes. Estaremos condenados a ser uma economia de altos custos enquanto não entendermos que os controles não são comandos obedecidos e sim custos transferidos (....) Invariavelmente, esses custos têm três componentes: o custo da própria burocracia, o custo da espera da decisão e o custo de corrupção.

Roberto Campos. O século esquisito. 1989.

Primeiro final de semana de abril do ano do Coronavírus.

Eu e minha esposa, num domingo já quente e seco na Savana brasileira, resolvemos assistir o documentário Indústria Americana (American Factory), ganhador do prêmio de cinema norte-americano Oscar.

A produção apresenta diversos fatos sem explicitar a avaliação (adjetivação, valorização) de seus diretores ou financiadores. Há avaliações? Sim, há, mas das diferentes pessoas e grupos que são objeto do documentário. Movimento de afastamento muitíssimo difícil e fundamental como afirmara Nietzsche: não há fatos morais, mas avaliações morais de fatos.

Dito isto em relação à produção e ao produto, gostaria de convidá-la(o) a fazer uma pequena leitura avaliativa do documentário. Isto supõe o contato com a obra cinematográfica em questão.

Abordarei alguns poucos pontos que chamaram minha atenção, que perturbaram alguns de meus preconceitos. Obra artística que não perturba a atual calmaria tem pouco poder de provocar o bem-vindo desequilíbrio reconfortante.

No início, uma montanha de areia. Uma montanha de areia dentro de um grande galpão. Vazio. Nenhum humano. Apenas areia. Instrumentos robóticos deslocam a areia para seu destino final: a fornalha. Há muito nossos antepassados descobriram que areia submetida a determinadas temperaturas e pressões transmuta-se em vidro. Séculos depois, criamos máquinas que sabem como fazer os mais diversos tipos de vidro. Paralelamente, bilhões de humanos isso desconhecem.

O gênio humano é capaz não só de criar instrumentos que facilitem nosso trabalho, mas também de criar instrumentos que fazem nosso trabalho. Alguns destes instrumentos fazem trabalho manual (empurrar, puxar, levantar, carregar, etc), outros fazem trabalhos mais sofisticados e complexos, como identificar quais medicamentos possuem moléculas que são capazes de atuar sobre o novo CoronaVírus. Quais destes trabalhos mais valorizamos, quais acreditamos que deveriam ser melhor valorizados monetariamente?

O filme segue e mostra um fenômeno comum nos anos 1990: fechamento de grandes fábricas nos países de economia mais avançada (renda e escolarização elevadas). O cinturão da ferrugem nos EUA sofre. Sindicatos e sindicalizados outrora protagonistas são negativamente atingidos pelo fechamento de fábricas que se deslocam para países onde os custos de produzir são menores e os trabalhadores são mais qualificados.

A imagem da areia inicialmente apresentada é inserida numa fábrica de produção de vidros para automóveis. Esta fábrica é comprada por uma empresa chinesa que quer transformar a fábrica de meados do século XX em um componente de uma indústria global às vésperas do século XXI. O processo de globalização - iniciado talvez nas Grandes Navegações do século XVI (ou com a expansão das grandes religiões) - permite que, surpreendentemente, comunistas comprem indústrias capitalistas nos EUA.

Chineses comunistas (defensores do proletariado), indo para os EUA (terra dos capitalistas exploradores sem-coração), ensinar aos sindicalizados operários norte-americanos a trabalhar de forma eficiente. Não apenas ensinar, mas combater os sindicatos (grupo de interesse). Contraditório? Apenas para quem não têm acompanhado corretamente as novidades iniciadas nos anos 1960.

O presidente da empresa chinesa chega em sua nova aquisição. Entra num grande salão. Vê uma enorme parede branca com uma luminária vermelha no meio. Mesas abaixo dela. O chefe diz: ponha esta luminária um pouco mais para lá, pois atrapalha a decoração. O responsável norte-americano diz: não podemos, pois é ilegal. Há uma lei que nos obriga a pôr a luminária ali! O chefe faz ar de incrédulo, mas é real. Trazendo para o Brasil do Corona: por que não havia há testes rápidos, álcool gel e máscaras em produção nacional generalizada?

Foto:Presidente Cao Dewang da empresa Fuyao na cidade de Dauton, em Ohio

Ao longo do filme, observo a diferença geracional. Os profissionais norte-americanos da indústria possuem 40 ou 50 anos. Apenas um trabalhador americano fala chinês. Muitos dos chineses que chegam para trabalhar na fábrica falam inglês. São jovens, ambiciosos e escolarizados. Estão longe das famílias e são disciplinados, habituados a um tipo de vida bastante duro, cheio de restrições. Disciplinados, focados.

Dilemas diversos aprecem no choque destas duas culturas, destas duas demografias, destas duas políticas. Os americanos que antes estavam sem emprego, durante um período inicial ficam felizes pelo fato dos chineses terem reaberto a fábrica, mas alguns meses depois, já sem as restrições anteriores, tentam fazer com que a roda da história volte para trás.

Neste momento do filme políticos profissionais e sindicalistas profissionais tentam os trabalhadores americanos que é fundamental se sindicalizarem, que o sindicato faria suas vidas serem tão gloriosas como antes (1980/1990). Um diálogo é crucial para entender a ruptura com o espírito do “faça vocês mesmo”, “faça por merecer”: um negro norte americano forte com brinco de ouro na orelha diz que a filha dele – manicure - no ano anterior ganhou 13 mil dólares a mais do que ele. Algo absurdo, pois no passado não era assim. Sindicalizar-se era o meio para que seu trabalho, de operário fabril, fosse mais valorizado do que o de uma manicure. O preço (salário, juros, etc) o que significa? O fato dos preços serem politicamente determinados é a base do colapso de qualquer tipo de socialismo. Isso me faz lembrar um jargão comum em camisetas: “mais Mises, menos Marx”!

O ápice do documentário coincide com seus minutos finais. Ótima técnica.

Neste momento há monólogos de três personagens. Momento fundamental para observarmos diferenças geracionais e suas diferenças em relação à visão de mundo, interesses, objetivos.

Solitário, o presidente da fábrica de vidro sino-americana diz: minha geração passou fome, a vida era muito difícil (milhões e milhões de mortos com a grande fome produzida por Mao), mas ele construiu muitas fábricas, viaja o mundo, tem carro com motorista. Pensativo, circunspecto, caminhando em sua mansão cinematográfica, afirma que, no entanto, que sente muita, muita falta do som dos animais, dos insetos com que coabitava no miserável passado… e se questiona se ele fez o bem (construindo fábricas e tirando milhares da miséria) ou se ele é um monstro (destruindo a natureza). Este raciocínio leva-me diretamente ao Romantismo e ao “Mal-estar na civilização” de Freud.

Com um olhar triste, sem energia, um dos trabalhadores sindicalistas diz que a vida anterior à crise e aos chineses era melhor, pois ganhavam o combinado pelo sindicato, tinham tempo, trabalhar na fábrica era menos exigente, menos estressante. Ganhavam bem e podiam ter uma casa com cerca branca. Recordo-me imediatamente da canção “Casinha Branca” do cantor Peninha.

Por fim, um dos jovens engenheiros chineses, que trabalha mais de 10 horas por dia, comia pouco, mas que apesar de cansativo achava sua atividade desafiadora, prazerosa reflete: minha geração quer tudo, posso viajar para onde quiser, comprar o que quiser. O esforço feito desde seu primeiro emprego aos 18 anos vale a pena.

Os minutos finais do documentário trazem reflexão sobre a substituição do trabalho motor humano pelo trabalho automatizado. Debate este que começa na revolução industrial do século XVIII. Inovação tecnológica e organizacional desconstruindo os demiurgos de Hegel e Marx. Em breve, advogados, contadores e médicos serão paulatina e inexoravelmente substituídos por inteligência artificial.

Dois movimentos, um político, outro econômico, contribuem para explicar o processo que os nacionalistas protecionistas chamam de “desindustrialização”:  intensificação da automação/robotização passando a substituir processos concentrados em conhecimento (mais caros); e a aposta do grande capital industrial na China, onde a falta de democracia política impõe o máximo de redução de custo de produção possível num ambiente dominado pelo estado.

O documentário foi realizado num ambiente político e econômico anterior à atual pandemia iniciada na China, o que pode nos ajudar a pensar no mundo pós-COVID19.

A pandemia atual imporá revisões críticas e profundas de decisões tomadas no ambiente pós colapso da URSS e queda do Muro de Berlin e pós a “onda vermelha” sul-americana. Possivelmente muitas plantas industriais que se concentraram em países como China e Índia mudarão de endereço, algumas voltando para suas origens.

Culturas se interpenetram. A beleza das relações humanas é que elas são como as águas do rio no pensamento de Heráclito. Se por um lado, o chinês que é obviamente proibido de ter acesso a armas por sua ditadura aprende a atirar nos EUA graças seus amigos americanos que trabalham na mesma fábrica que ele e levará este conhecimento para sua casa, por outro, a indústria que sair da China e voltar para o ocidente levará o conhecimento de que a determinação política dos preços e a burocratização implicam ineficiência e preços finais mais elevados.

A vida é dialética!

 

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Coluna do Alvão
Sobre Coluna do Alvão
Daniel Alvão é psicólogo formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB). Entre 2003 e 2012 atuou como consultor da Unesco e da Organização Pan-Americana de Saúde. É Analista de Políticas Sociais do governo federal. Foi assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados entre 2015 e 2019. Atualmente é Analista de Políticas Sociais no Departamento de Articulação Interfederativa do Ministério da Saúde.