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Saúde & Bem-Estar Fique em casa?!

OS CROODS E O “FIQUE EM CASISMO”

“As preferências dos pacientes e as evidências científicas sólidas são a base para a escolha entre as opões de cuidado à saúde”. Fletcher, Epidemiologia Clínica (2011)

19/08/2020 09h22
Por: Redação
Foto: Djalma Vassão/FotosPublicas
Foto: Djalma Vassão/FotosPublicas

Em 2013 emergiu para olhos assustados e desabituados às críticas fundamentais o processo político que vivemos até hoje, marcado em seu início e intensificação pelos movimentos democráticos que culminaram na morte de um jornalista, depredações de propriedades estatais e privadas, entre outras expressões da tolerância democrática. O fenômeno “black boc” era a expressão “antifascista” de então.

À época meus filhos tinham, em média, 5 anos e este fato me fez assistir pela primeira vez o filme de animação chamado “Os Croods”. Uma estória sobre o medo, sobre viver com medo, sobre como a vida é perigosa, sobre como a “boa intenção” é muitas vezes cruel e destruidora da liberdade, da criatividade e, por consequência, da felicidade. Enfim, um filme que mostra que a vida é limitada pela morte e que este fato não deve/pode servir para limitação da liberdade alheia.

Hoje, sete anos depois do lançamento, o filme mostra-se mais atual do que nunca, principalmente seu início, que expõe de forma fantasiosa o quão poderoso é o terror e o medo na conformação do comportamento individual e grupal. Sugiro à leitora e ao leitor destas linhas que veja ou reveja a animação com o olhar 2020.

No “combate” à transmissão e à mortalidade da recém conhecida Covid19 uma das estratégias da elite política e tecnocrática governante mundo afora - salvo raríssimas exceções - foi o “fique em casa” e demais anexos. Essa orientação abandona parte do conhecimento documentado sobre as ações eficientes contra epidemias como a que vivenciamos atualmente (isolar os doentes, higiene, prudência em relação aos mais fracos ou já adoentados) e sua base é uma velha conhecida: medo.

Apesar de ser um dos atuais componentes da moda e estilo de parte das elites humanas, o “fique em casismo” não é homogêneo em sua composição. Num olhar superficial e inicial é possível identificar quatro grandes subgrupos:

·        a elite política que diante de um problema inédito para nossa geração (tenho 52 anos) deduziu a oportunidade de entrar para a história com uma estratégia inédita e autoritária, ornamentada pelo cientificismo;

·         as pessoas que mediante os discursos realmente ficaram com medo e resolveram isolar-se em seu micro-ambiente sem saber dos riscos e danos envolvidos;

·          parte da elite econômica (e política) que observa a oportunidade de ganhar dinheiro no curto e no médio prazos;

·         a elite dos trabalhadores dos setores de serviços e tecnologia (membros das tecnocracias públicas e privadas) onde o exercício de suas atividades independe do local territorial onde se encontra, contanto que a infraestrutura de telecomunicação contemporânea funcione e esteja disponível para seu uso.

Este último subgrupo é muito importante, pois inclui os profissionais que recebem sua renda da produção e circulação de informações. Não obstante, em países como Brasil onde as regras de trabalho fundam-se no fascismo ou no fordismo/taylorismo, o “fique em casismo” torna-se evidência empírica do fracasso desta forma estatista de lidar com relações privadas, além de oportunidade para parte dos membros deste subgrupo descobrir que há vida além dos “pontos”, baias, viagens, etc.

    No artigo “reflexões pandêmicas – parte 1”, publicado pelo Instituto Millenium, fiz referência a uma constatação apresentada pelo historiador francês Fernand Braudel no clássico Civilização Material e Capitalismo publicado no Brasil em 1970 e que contribui para a ampliação de nossas escalas temporais e territoriais: “O que se desagregou com o século XVIII, tanto na China como na Europa, foi um antigo regime biológico, conjunto de constrangimentos, de obstáculos, de estruturas, de relações, de jogos numéricos que até aí tinham sido norma. O jogo disputa-se sem fim entre os dois movimentos: nascimentos e mortes. O número partilha, organiza o mundo, dá a cada massa o seu peso particular, fixa por uma vez, ou pouco falta, o seu nível de cultura e de eficácia, os seus ritmos biológicos (e até econômicos) de crescimento, e até o seu destino patológico. Quanto a este último ponto, mostramos rapidamente mas mostramos que a China, a Índia, a Europa são enormes reservatórios de doenças, despertas ou adormecidas, prontas a difundirem-se.”

       A atual pandemia de Covid19 demonstra o acerto da avaliação feita por Braudel. O que ele não pôde antecipar foi o conjunto de escolhas tomadas pelas elites políticas e tecnocráticas mundo afora. As crianças, pré-adolescentes e adolescentes que estão forçosamente “em casa” em 2020 têm elevada probabilidade de avaliarem as respostas dadas por minha geração como errôneas em relação aos objetivos declarados.

       Oxalá a vida imite a arte e estejamos próximos da segunda metade de Os Croods!

 

Referências

1 – Fletcher, Robert e Suzanne. Epidemiologia clínica. Elementos essenciais. Ed. ArtMed. 2011.

2 – Reflexões pandêmicas – parte 1. Url: https://www.institutomillenium.org.br/reflexoes-pandemicas-parte-1/

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Coluna do Alvão
Sobre Coluna do Alvão
Daniel Alvão é psicólogo formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB). Entre 2003 e 2012 atuou como consultor da Unesco e da Organização Pan-Americana de Saúde. É Analista de Políticas Sociais do governo federal. Foi assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados entre 2015 e 2019. Atualmente é Analista de Políticas Sociais no Departamento de Articulação Interfederativa do Ministério da Saúde.