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Entrevistas Capacitação

Presidente do SETCESP, Tayguara Helou, fala em entrevista sobre a importância da qualificação do motorista

Tayguara Helou conta ainda o início da sua trajetória no segmento de transportes

26/12/2020 09h45 Atualizada há 4 semanas
Por: Camila Pimentel
Foto: Tayguara Helou/Presidente SETCESP
Foto: Tayguara Helou/Presidente SETCESP

Jovem e determinado este é o perfil do empresário do setor de Transportes, Tayguara Helou. Diretor de Desenvolvimento de Novos Negócios da Braspress e presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (SETCESP), Tayguara Helou, começou cedo no setor e viu uma oportunidade para trilhar no caminho da inovação, criatividade e modernidade. Em entrevista ao Portal On Truck, ele relatou o início de sua carreira e falou um pouco sobre sua trajetória nas entidades de classe do segmento de transportes. Tayguara Helou também destacou a importância da qualificação e capacitação dos motoristas. Confira a seguir:

On Truck - Como começou a sua carreira no segmento de transportes?

Tayguara Helou - Minha carreira no setor de transporte começou em três de julho de 1980. Exatamente o dia que eu nasci. Meu pai, Urubatan Helou, fundou nossos negócios em primeiro de julho de 1977, portanto pode se dizer que eu nasci no pátio da transportadora. Nosso grupo, o Grupo Braspress, naquela época, era uma pequena empresa de três anos e eu tive a oportunidade de crescer dentro da empresa e ao lado de um grande empreendedor que é o meu pai. Foi lá que começou toda a minha experiência no transporte de cargas. O Sr. Urubatan, como visionário que é, às vezes faz coisas sem querer e acaba acertando, inclusive na família. Eu tenho um irmão mais velho, Urubatan Jr., e meu pai nunca nos levou de castigo para a empresa. Ele criou um sistema em que nós passamos a gostar de ir até lá. Então desde pequenos, íamos ao colégio e fazendo as coisas certas ganhávamos o prêmio de poder ir no trabalho dele. Nós adquirimos gosto de frequentar o local de forma lúdica, brincando no pátio e na oficina. Assim começou.

Fui ganhando mais maturidade, comecei a passar por outros departamentos. Bastante operacionais primeiro. Fiquei muito tempo nas docas recebendo cargas FOB, clientes trazendo essas cargas. Fui também para emissão, central de atendimento de coletas, entre outros. Assim minha carreira foi prosperando, mas sempre focado nos estudos. Quando terminei o colegial fui estudar na Austrália administração com ênfase em finanças. Morei lá por quatro anos e voltei me achando o melhor gestor do planeta terra. Cheguei em 2003, quando a Braspress já era uma empresa grande no mercado e perguntei para o meu pai onde que eu ia começar a trabalhar  e ele me respondeu que na empresa ainda era muito cedo para eu começar. Foi um balde de água fria, mas ele já estava me ajudando a trilhar um caminho ainda que indiretamente. Colocou-me para trabalhar ao lado da secretária dele enquanto eu pensava o que poderia fazer. Comecei a observar o movimento e o trabalho dos agregados. A Braspress tem sua característica de fidelizar seus terceirizados, então eles são 100% dedicados ao negócio.

Vendo aquela movimentação, tive a ideia de montar uma pequena transportadora para ser agregada no Grupo Braspress, com uma ajuda financeira do meu pai. Eu redigi meu próprio contrato social, fui na junta comercial, contratei motoristas, criei controles e assim foi até o final de 2004, quando eu já estava com 12 conjuntos completos e 23 motoristas na operação. Queria ser diferente de todas as outras agregadas, então coloquei o logo da Braspress em todos os caminhões, criei um sistema de seleção de motoristas parecido com a do grupo e ajudei a aperfeiçoar o que estava vigente. No final de 2004, fui convidado para ser controller e fui efetivamente contratado pela Braspress. Fiquei 10 anos neste cargo, até que assumi a minha posição atual como diretor de desenvolvimento de novos negócios. No mesmo ano, em que fui efetivado na empresa de meu pai, ele abriu novamente a Comissão de Jovens Empresários e Executivos do SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região) e comecei minha jornada nas entidades.

Na nossa primeira reunião em São Paulo éramos cerca de 16 jovens e, como meu pai era o presidente do SETCESP, eu não poderia ser indicado como coordenador naquele momento. Entretanto, em 2006 fui eleito coordenador com unanimidade, recebendo uma COMJOVEM com 70 pessoas e entregando-a com 120. Fiquei 3 anos participando de atividades do SETCESP, até que fui convidado para compor a chapa da diretoria como suplente financeiro do então Presidente Francisco Pelucio. Depois fui convidado pelo presidente, Francisco Pelucio, e pelo Flávio Benatti que era presidente da NTC&Logística, para ser vice-coordenador nacional e criar um projeto efetivo para a COMJOVEM Nacional que conhecemos hoje. Na gestão do Manoel Sousa Lima Junior no SETCESP, recebi um convite para ser o primeiro vice-presidente da entidade, trabalhando com muita dedicação e afinco. Ao final de três anos, fui convidado a me eleger como presidente do SETCESP. Hoje sou o 27º presidente eleito, o primeiro vindo da COMJOVEM, primeiro filho de ex-presidente, o mais novo da história da entidade e o primeiro e provavelmente, o único presidente surfista do SETCESP.

On Truck - Qual a importância do setor para a economia do Brasil?

Tayguara Helou - O transporte como um todo, tanto de cargas quanto de passageiros, é fundamental para vida e para tudo. O transporte de passageiros leva e traz as pessoas de um ponto ao outro. Leva a mãe para a maternidade para dar à luz e leva o obstetra para fazer o parto. Também leva todos os suprimentos ao hospital para que essa mãe possa dar à luz em segurança. O transporte e a logística são fundamentais para o desenvolvimento da indústria, do varejo, da rede de serviços, do comércio, do consumo e do desenvolvimento econômico brasileiro. Quanto mais eficaz o sistema logístico de um país, mais eficiente é a economia. Portanto, o transporte rodoviário de cargas, por interligar todos os outros modais, é o grande responsável pela primeira milha, pelas viagens de média e longa distância e pela última milha, ele é extremamente fundamental para tudo que fazemos.

On Truck - O senhor tem chamado a atenção publicamente para falta de motorista no setor de transportes. Qual o motivo para a escassez destes profissionais no segmento de transportes de cargas?

Tayguara Helou - Uma série de motivos levou o transporte de cargas a ter uma redução na quantidade de motoristas. É óbvio que isto é muito associado ao movimento econômico do Brasil. O transporte é movido à PIB, se ele está em baixa, normalmente não falta motorista e quando há um certo aquecimento no PIB, acontece este problema. É isto que está acontecendo agora. Nós acompanhamos, já há muitos anos, pelo SETCESP e pelo Instituto Paulista do Transporte de Carga (IPTC) esse tema, observando a emissão das carteiras profissionais de motorista de caminhão que são a C, D e E. Percebemos que a quantidade dessas carteiras está reduzindo e nós acompanhamos também a idade média do motorista através de pesquisas junto com outras empresas. Os motoristas passaram de 35 a 45 anos, em sua idade média, para 45 a 55 anos, ou seja, o motorista está envelhecendo e nós estamos com dificuldade de trazer o jovem para este mercado. Uma das razões para isso é a nova economia, que engloba startups, tecnologia, inovação e disrupção, está atraindo mais o jovem. Este tenta buscar esses novos caminhos e olha as profissões que têm um legado mais antigo com olhos diferentes, deixando-as em segundo plano. Todavia, o transporte mudou. Hoje em dia, o motorista não é mais igual ao do passado, sem demérito aos motoristas antigos, mas os que permaneceram, tiveram de se atualizar. O transporte de cargas é um setor muito inovador, que se mune da tecnologia, a qual está mais presente inclusive no próprio caminhão.

As situações de mobilidade mudaram: a quantidade de veículos trafegando, a complexidade da infraestrutura e do uso de dados, entre outros. Não necessariamente tudo isso influenciou o jovem a sair do mercado. Entretanto, o que mais o levou a isso foram as dificuldades pontuais, como infraestrutura e segurança pública, a maior complexidade nas operações em pontos de coleta e entrega de carga. Por outro lado, toda essa modernização também é uma ferramenta de atração. Temos trabalhado com muita força para demonstrar que estamos no caminho da inovação,  antenados em novos sistemas e aplicações, e que ser motorista de caminhão no Brasil, hoje, é estar inserido neste contexto.

On Truck - Quais as ações para incentivar a capacitação e a qualificação dos motoristas?

Tayguara Helou - O nosso setor tem o privilégio de ter seu próprio sistema S, que é o SEST SENAT. Temos 158 unidades em todo o Brasil. Existe o programa Primeira Habilitação feito de forma gratuita que já ajuda esse profissional a ser empregado. Este projeto consiste no acesso a uma grade de treinamentos muito vasta: são cursos de especialização e simuladores. O serviço tem todo um aparato tecnológico para poder amparar esses colaboradores e as empresas também têm investido muito em capacitação e treinamentos específicos para seu negócio, dependendo da especialidade da transportadora. Então temos o setor preparando os colaboradores e temos também as empresas contribuindo massivamente para este processo, já que estas também perceberam a falta de motoristas. Há também o movimento de capacitar os motoristas internos das empresas, incentivando o crescimento na carreira e na escala corporativa. 

On Truck - Qual a importância da relação transportadora x motorista?

Tayguara Helou - A relação entre a transportadora e o motorista é de família. Não existe estrutura familiar sem a figura materna, a paterna e os filhos, assim como não existe transportadora bem-sucedida sem bons motoristas. Por mais avançada que seja nossa tecnologia, por mais nova que seja nossa frota, por melhor que sejam nossos prédios, no final do dia nós sempre dependemos da qualidade das nossas pessoas. As empresas de sucesso hoje no mercado, investem muito no seu principal colaborador que é o motorista. As transportadoras têm diversos funcionários das mais diversas áreas, mas sem motorista, nada acontece, portanto ele é a peça principal.

On Truck – A tecnologia está afastando a contratação de novos motoristas?

Tayguara Helou - Não, pelo contrário. A tecnologia é uma ferramenta para atrair os jovens a esse mercado. É óbvio que o mundo não é perfeito e o excesso de tecnologia pode assustar um determinado motorista de uma operação, mas ele pode facilmente buscar uma operação com um aparato não tão complexo e que tenha menos tecnologia envolvida. 

On Truck – Como se dá o processo de contratação para novos motoristas? Quais são as estratégias que o SETCESP está pensando para atrair os jovens para a profissão?

Tayguara Helou - Primeiro de tudo, há uma estratégia de comunicação para mostrar para a sociedade que ser motorista profissional de veículos comerciais de carga e de caminhões no Brasil é, sim, um bom emprego. Por todos os desafios. É um trabalho externo que te dá a possibilidade de conhecer todo o Brasil, muitas vezes, além de ser um emprego que pode remunerar muito bem esses profissionais. Os bons motoristas recebem bons salários. Se a pessoa se preparar, se desenvolver e se destacar, ela estará em um ambiente muito interessante que pode ser, sim, muito seguro, podendo dar-lhe uma boa remuneração. Portanto, esse é o nosso primeiro trabalho: uma boa comunicação para mostrar essa nova realidade.

Nós também estamos estudando, em algumas frentes, em criar um braço para poder auxiliar a empresa a disponibilizar suas vagas e os motoristas a encontrarem essas oportunidades. Gostaria de atuar junto com outras entidades para que possamos ter uma capilaridade nacional, porque o transportador não está em um local só, ele está espalhado por todo o Brasil. Entre outras iniciativas que nós estamos planejando como buscar benchmarks no mundo inteiro, procurar tendências de mercado dos Estados Unidos, entre outros lugares, para podermos nos inspirar e trazer novidades para nossos profissionais. Estivemos no Canadá e na Alemanha conhecendo centros de desenvolvimento de tecnologia e capacitação de motoristas para poder trazer essas inovações para cá. Aliás, uma dessas viagens foi a que trouxe o conceito de simulação para nosso mercado, e que hoje é uma realidade.

On Truck – Qual o futuro do segmento de transportes no Brasil?

Tayguara Helou - Existem cinco setores do futuro no mundo inteiro. O primeiro, e mais importante, é a área da saúde. 2020 demonstrou o quanto é importante termos uma área da saúde bem preparada. Sem saúde, ninguém chega a lugar nenhum. Durante muito tempo vi as pessoas afirmarem que o principal instrumento de trabalho do motorista é o caminhão e, ao refletir sobre isso, percebi que o caminhão é quase que uma commodity hoje em dia. Não é só uma ferramenta de trabalho, na verdade, ele se tornou um mecanismo muito eficiente. Dificilmente a máquina dará algum problema quando bem cuidada. Já pensando no motorista, se   ele não cuidar da saúde dele, não irá conseguir produzir, portanto a principal ferramenta do profissional do transporte de cargas é ele mesmo e sua saúde. Seguindo, temos o setor de tecnologia e comunicação, que, sem eles, o transporte não existiria na escala de eficiência que tem. Na sequência, as energias renováveis. O mundo consome uma quantidade gigantesca de energia e quanto mais energia boa conseguirmos, mais longe o ser humano vai conseguir chegar.

Eu participo de várias viagens e já estive no laboratório de Stanford de energias renováveis, onde tive a oportunidade de perguntar para o professor chefe qual seria a energia do futuro. Pensei que ele iria me falar energia solar ou eólica, mas, para minha surpresa ele me falou sobre infusão nuclear. Esta é considerada perigosa, mas hoje temos tecnologia para contê-la muito bem e fazer a infusão dessas moléculas. Por fim, mas não menos importante, é aquele que vem para viabilizar tudo isso: o setor de transporte e logística. Este certamente é o setor do futuro. A tecnologia vem fracionando tudo que nós fazemos na vida e o e-commerce está crescendo de forma exponencial, sendo ele o final da cadeia de consumo, impactando a cadeia produtiva como um todo. Esse fator traz grandes perspectivas de negócios para nossa área. 

 

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