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Política Análise

O Colapso da utopia brasileira pré-revolução de 1989

Pessoas só podem ser felizes quando não pressupõem que o objetivo da vida é a felicidade. Orwell, George

31/03/2021 08h55 Atualizada há 3 semanas
Por: Daniel Alvão
Foto: Diego Vara/EBC
Foto: Diego Vara/EBC

A liberdade é algo que se fabrica a cada instante. O liberalismo não é o que aceita a liberdade. O liberalismo é o que se propõe fabricá-la a cada instante. Foucault, Michel.

Kant, Popper e Dahrendorf demonstraram que Arcádia, a Utopia ou a Tribo são inicialmente vendidas e compradas com base nas boas e românticas intenções declaradas. No entanto, acabam se mostrando mecanismos totalitários e, muitas vezes, autoritários, de imposição de vontades de seleto grupo de elite. A desilusão das pessoas em relação às imagens vendidas é fundamentada, em geral, com sofrimento concreto.

Esse pequeno texto sendo escrito em 21/03/2021. Há um ano minha geração, aquela que ocupa os lugares de comando nas organizações estatais mundo afora, age tendo como base o conformismo e a presunção. Há um ano o aparato repressivo estatal e todos aqueles a quem este financia e orienta tentam obrigar a maioria dos seres humanos em nosso planeta a se trancar em suas contemporâneas cavernas e a se submeterem servilmente àqueles, pois há um inimigo poderosíssimo que essa elite política e econômica, escolarizada com as fantasias discursivas de 1968 e usuários da tecnologia do século XXI, não sabe como lidar: um vírus de gripe.

Felizmente a sociedade brasileira não é tão conformista quando comparada a outras e não segue, em sua totalidade, a novas ordens. Como diria uma antiga canção de minha época no Diretório Central dos Estudantes da UERJ: “alguma coisa está fora da nova ordem mundial”. Não sejamos tão nacionalistas. Uruguai, Suécia, Noruega, Camarões, Arábia Saudita, Estônia, entre outros, também tentaram escapar do conformismo ao longo deste período tenebroso de nossa história política e sanitária. A figura abaixo apresenta três fotografias planetárias do “fique em casismo” ao longo do tempo.

Em função de minhas atividades e interesses acompanho diariamente as opiniões publicadas (opinião pública não existe) por diferentes organizações que produzem e distribuem informações. O termo “colapso” entrou em voga nas últimas semanas. Colapso é repetido por alguns universitários em diversos meios de circulação da informação e por quem neles se referenciam.

De acordo com o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de autoria de Antônio Geraldo da Cunha, “colapso” é um substantivo masculino que aponta para “diminuição ou inibição repentina de qualquer função vital”. Minha geração, no Brasil e em boa parte do mundo, há quase dois anos tenta “achatar a curva” com medidas higienistas, com a promessa de evitar o “colapso” dos serviços de saúde. O atual uso do termo colapso foi cunhado e distribuído a partir da experiência Italiana e Espanhola, que muitas similaridades possuem com o Brasil (todos somos Ibéricos em boa medida) em relação ao estatismo, a certas concepções totalitárias e, por vezes, autoritárias da vida banal.

O observador que desconhece o Brasil, ou por amnésia, ou por ignorância, ao ler o que é publicado com grande frequência seria induzido a raciocinar da seguinte forma: “que terrível ocorre hoje com o povo brasileiro… há até alguns meses atrás os membros mais experientes e sábios de sua sociedade garantiam que as gerações mais jovens aprendessem o suficiente e necessário para inserirem-se soberanamente no mundo globalizado, assim como garantiam serviços de saúde a todos sempre que necessário… e sem cobrar nada de ninguém, nunca. Que ser vil é este vírus, que destruiu esse mundo”.

Creio que o melhor termo para o que hoje ocorre em relação aos serviços de saúde ofertados pelos governos aos que pagam impostos não é “colapso”. O sistema nacional de saúde (SNS) criado pela utopia arcadiana chamada constituição federal de 1988 é ineficiente para a maioria há mais de 30 anos. Substituir “colapso” por “desilusão” não é adequado, pois, salvo ações de complexa logística territorial e uso intensivo de tecnologias avançadas concentradas em determinados pontos no território (vacinação e transplantes de órgãos, por exemplo), nosso modelo totalitário de SNS não atende às expectativas e necessidades contemporâneas de nossa população. Sabemos que governos não são boas empresas dado que não ofertam bons serviços a preços competitivos quando demandados.

Choque de realidade talvez seja o melhor substituto para “colapso”. O Sistema Único de Saúde (SUS) está em colapso desde sua origem, pois Utopia é. Leiamos as opiniões publicadas e pesquisas de opinião feitas nos últimos 30 anos por pessoas que não subsistem do próprio SUS. Oxalá a negação da realidade seja parte desse choque!

Quando a campanha de vacinação contra covid19 fizer com que cerca de 30% ou 40% de nossa população seja imunizada, as pessoas atingidas negativamente pelas decisões de minha geração governante têm o dever moral de olhar para nossa constituição e suas promessas utópicas e colocar os governos e seus aparatos de violência e coerção no seu devido lugar: servis aos que produzem, servidores das pessoas, não déspotas esclarecidos(?).

Em 1969 ou 1970 Paulo Francis escreveu as seguintes linhas: “Quanto maior a ambição ética, maior a violência repressiva de seus proponentes, como se a grandeza dos fins exigisse uma baixeza equivalente dos meios usados para alcançá-la (...) É da essência do totalitarismo a uniformização do pensamento, e esta é a morte da arte (...) O espírito totalitarismo não admite impurezas ou contradições em seus desígnios. Precisa manter uma imagem onipresente de perfeição ao alcance dos fiéis. E o caminho da perfeição totalitária é sempre árduo, pontilhado de sacrifícios humanos.”

Março de 2021. Cinquenta e três anos de idade. Há esperança caso minha geração seja racional e duramente criticada pelas novas gerações, que incluem filhos e netos de muitos de minha idade ou mais velhos.

 

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Coluna do Alvão
Sobre Coluna do Alvão
Daniel Alvão é psicólogo formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB). Entre 2003 e 2012 atuou como consultor da Unesco e da Organização Pan-Americana de Saúde. É Analista de Políticas Sociais do governo federal. Foi assessor Parlamentar na Câmara dos Deputados entre 2015 e 2019. Atualmente é Analista de Políticas Sociais no Departamento de Articulação Interfederativa do Ministério da Saúde.